FRANCISCA ROSA DE SOUZA



Em memória

  • 21/04/1946
  • 29/08/2022
Para falar desta incrível mulher tem que começar poetizando: “Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou, ensinou a amar a vida, não desistir da luta, recomeçar na derrota, renunciar a palavras e pensamentos negativos, acreditar nos valores humanos, ser otimista” (Cora Coralina) Francisca Rosa de Souza, nasceu em 21 de abril de 1946 no Distrito de Patos, município de Paratinga-BA. Perdeu sua mãe Raimunda Rosa de Jesus de forma precoce quando tinha apenas 2 anos e foi criado pela pessoa que mais amou e orgulhou-se na vida: seu pai - Jerônimo Ferreira de Souza. Ainda criança, acompanhou seu amado pai em mudança para o Distrito de Descoberto, município de Coribe-Ba. Devido à ausência da sua mãe, teve como referência materna sua irmã Alexandrina. Não teve acesso à escola, frequentou alguns dias aulas de alfabetização, porém as possibilidades financeiras do seu amado pai eram insuficientes para garantir período mais longo na escola, o que a tornou analfabeta funcional. Casou-se aos 16 anos com João Bento de Souza e teve 10 filhos: 6 meninas e 4 meninos. Cada um tinha um apelido especial criado por ela, na ordem do mais velho para o mais novo, chamava os filhos assim: Dim, Valduca, Tõe, Santa, Ninha, Meu Nego, Su, Mundinha, Detinha e Chérosa. Francisca distribuía seu tempo entre o trabalho como lavradora, dona de casa, esposa e mãe de forma heróica, sempre zelando do seu bem mais precioso que era a sua família. Era divertida, alegre, religiosa. Frequentava os cultos dominicais, as missas e fazia orações do santo terço e do Ofício de Nossa Senhora com frequência, juntamente com toda a família. Não sabia bem como expressar carinho através de palavras, mas seus atos deixavam evidentes o quanto transbordava amor pela sua família nuclear, amor nem sempre acolhido ou bem interpretado, mas amou intensamente e sofreu a cada desentendimento não elucidado. Em 1979 sofreu mais um grande golpe com a perda do seu amado pai, sua maior referência, o maior amor da sua vida, a pessoa que ela não cansava de falar com muito orgulho. Ai de quem falava pelo menos um pouquinho mal do seu pai, ela não admitia. Após a morte de seu pai, adoeceu e com isso conheceu o primeiro médico de sua vida, pois, até então tinha boa saúde e seus filhos todos foram nascidos através do auxílio de parteiras. Restabeleceu sua saúde e continuou a vida, usando as sequelas deixadas pela perda do seu pai como força para continuar lutando. Embora analfabeta, Quica (como era conhecida) era uma senhora letrada, reconhecia a importância da educação e com isso ofereceu minimamente aos filhos o estudo que pode, pois eles também deveriam trabalhar na lavoura para ajudar no sustento da família. As mulheres, ao completar o ciclo da educação básica, eram direcionadas por ela a trabalhar na cidade como empregadas domésticas a troco do estudo do ensino normal/médio. Os homens, como não havia esta opção, encerrava seu estudo no quarto ano primário, isso para a matriarca da família era motivo de tristeza e pesar. Participou de movimentos sociais, sindicais e políticos, em defesa de trabalhadores rurais e mulheres em busca da libertação sobre a opressão machista e dos seus direitos enquanto cidadãs. Estudou curso de alfabetização de adultos (antigo Mobral), onde ampliou seus conhecimentos acerca do mundo e seu repertório de alfabetização. Mesmo diante das lutas, das dores e dissabores da vida, dona Fran não perdia o bom humor. Ouvia e cantava músicas sertanejas raiz como Tonico e Tinoco, Lourenço e Lourival, Tião Carreiro e Pardinho, Chitãozinho e Xororó, etc. Um trecho marcante de uma canção parecia trazer a ela uma certa identificação. Ela cantava colocando toda a sua emoção: “Menina da aldeia Ai quem me dera se eu pudesse agora Voltar de novo ao tempinho da escola E com você novamente estudar Menina da aldeia Lembro-me ainda como se fosse agora Eu no caminho lhe tomava a sacola Só pra ver você chorar” (Lourenço e Lourival) Dona Quica era sempre muito solicitada para rezar em novenas, em promessas feitas pelas amigas e em velórios. Rezava a ladainha de Nossa Senhora em latim, incrivelmente admirada por todos. Entre as diversas qualidades como pessoa humana, suas características sobressalientes eram a solidariedade, a caridade, a empatia por pessoas doentes e por idosos, a justiça e a intercessão pelas pessoas sofridas através de suas obras e orações. Teve sua vida marcada pelas despedidas dos filhos ao migrarem um a um para o estado de São Paulo, cada partida, uma dor, mas o desejo que seus filhos alçassem voos e obtivessem maiores conquistas era superior à causada pela saudade. As cartas enviadas e recebidas eram carregadas de saudade e emoção. Em janeiro de 1994, sofreu mais uma terrível e dolorosa perda, neste caso acredita-se que foi a pior, sua filha mais velha entre as mulheres faleceu aos 23 anos. Essa dor a levou a uma profunda reflexão, a um longo período de sofrimento e um grande desgosto pela vida. Levou essa dor consigo até a sua morte. Mesmo com o coração em pedaços, nunca desistiu da luta, nunca desprezou seu foco principal que era zelar pela família e lutar por melhores condições de vida, buscando uma velhice tranquila e para isso trabalhava de sol a sol na roça. A roça era também onde encontrava forças para lutar, o cheiro da terra a fortalecia, o verde da plantação a enchia de esperança e o fruto da plantação lhe enchia de dignidade. Em paralelo a dor da perda da sua primogênita, conheceu seu primeiro neto, Douglas, o “Cheiroso”, ele transformou um momento de dor numa alegria imensurável. Posteriormente vieram outros netos, totalizando 20. Anos depois, os bisnetos, conheceu 4. A seca terrível do sertão baiano trazia-lhe muita angústia, insegurança, medo, tristeza, mas não lhe faltava esperança e fé em Deus. Sua alegria é ver a chuva, as nuvens no céu enchiam seus olhos de esperança. Nestes momentos as músicas de Luiz Gonzaga marcavam sua trajetória. Setembro passou, outubro e novembro, já estamos em dezembro, meu Deus o que é de nós, meu Deus, meu Deus. (Luiz Gonzaga – A triste partida) A fé a mantinha em pé diante dos fortes desafios enfrentados e um louvor que reverbera a marca de sua fé cantado de forma eloquente tocava o coração de quem a ouvia, pois sabia que aquelas palavras saíam da sua alma: “Nada poderá me abalar, nada poderá me derrotar, pois minha força e vitória tem um nome é Jesus!” Chica adorava um bom cafezinho quente, era apaixonada por pizza, bolo, beju de tapioca, biscoito de polvilho, flores (as rosas eram as prediletas) e plantas, preferencialmente as que floresciam. Gostava de música (religiosa e sertaneja), tinha uma gargalhada prazerosa, conquistava amizade por onde passava, apreciava uma boa prosa com os amigos (e até com os desconhecidos), mas seu maior prazer, indiscutivelmente, era ir à missa. Um bendito cantado para expressar sua satisfação com a igreja era: Te amarei Senhor, te amarei Senhor, eu só encontro a paz e alegria bem perto de Ti. Aos 55 anos de idade conseguiu sua merecida aposentadoria como trabalhadora rural e em seguida foi contemplada com o péssimo diagnóstico de uma doença autoimune: a Artrite Reumatóide. Paralelo a isso seu casamento finalizou, mesmo contra sua vontade que era de viver o famoso “até que a morte nos separe”. Passou por múltiplas crises de saúde física, seu emocional ficou extremamente abalado, mas seguiu firme na luta, sempre apegada com a intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Em busca de tratamento, a convite de sua filha Mariana, mudou-se em 2006 para o estado de São Paulo, cidade de Cabreúva. Lá, conseguiu buscar tratamento médico para tratar a Artrite. Diante de um excelente profissional da reumatologia, dr. João Carlos Lestingi (em memória) obteve sucesso no tratamento e qualidade de vida por um período de aproximadamente oito anos. Nesse período novos diagnósticos foram surgindo: fibromialgia, artrose, desvios na coluna, bicos de papagaio, diabetes, hipertensão arterial, depressão. Foram muitas as lutas, foram muitas as buscas por tratamento, correrias por exames, preocupações financeiras devido ao alto custo dos diversos tratamento, pois alguns eram tratados pela rede privada de saúde. Sinônimo de luta e de vontade de viver, Francisca praticava atividades físicas como Pilates e Hidroginástica para fortalecer o seu corpo e restaurar sua saúde. Estes espaços também beneficiavam sua saúde emocional pois socializava com as colegas durante as atividades. Era apreciadora da natureza, amava viajar (ficou encantada em viajar de avião), se quisesse deixá-la feliz era só convidá-la a almoçar num restaurante, o evento que a deixava mais orgulhosa era formatura dos seus. Fran amava celebrar a festa do seu aniversário, todo ano era necessário comemorar, sobretudo para estar junto com seus filhos. Como sua vida era marcada pela separação e pela emoção, sua filha caçula, Claudinéia, seguindo seu exemplo de esforço, mudou-se para os Estados Unidos para estudar. Isso a entristeceu demais, pois tinha esperança de morar junto com sua Cherosa. Este episódio a fez criar uma relação mais fortalecida com sua filha Mariana que a amparou e esteve junto com ela até quando Deus permitiu. Passados alguns anos de tratamento reumatológico, o médico que a tratava infelizmente faleceu, isso trouxe uma grande desestabilidade na sua saúde, foi feita a troca de médicos, a fórmula foi substituída por remédios biológicos, sem quase sucesso, o fator reumatóide ficou descontrolado, sua esperança foi minando, as outras enfermidades também agravaram e com isso ela começou a ter lapsos de memória significativos que imediatamente foi diagnosticada com Demência/Alzheimer. Devido às dificuldades em morar distante dos demais familiares, mudou-se com sua filha Mariana e seus netos para Jundiaí na busca de auxílio com os cuidados e acesso aos serviços de assistência médica. Reclamava de saudades de morar no Vilarejo de Cabreúva e da igreja Maria de Nazaré, qual a acolheu e fortaleceu sua fé. Embora acompanhada pelos profissionais da neurologia e da geriatria, o mal de Alzheimer evoluiu de forma rápida tirando em pouco tempo sua autonomia e ceifando suas habilidades de lembrar, andar, falar e, por fim, de alimentar-se. Mesmo em fase terminal rezava diariamente acompanhada de seus filhos mais próximos e sempre declarava amor a Nossa Senhora. Na manhã de segunda-feira do dia 29 de agosto de 2022 Deus a descansou e deixou a seus filhos que verdadeiramente a amou e compreendeu o significado de suas inúmeras e incansáveis lutas o seu rico legado de amor pela família, honestidade, coragem, justiça e luta. Eternas saudades dos filhos, netos, e todos que a conheceu e a amou. Mãezinha do céu eu não sei rezar eu só sei dizer quero te amar. Azul é seu manto, branco é seu véu. Mãezinha eu quero te ver lá no céu. FRANCISCA ROSA DE SOUZA *21/04/1946 +29/08/2022


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